Friday, September 30, 2011

Casa da Cachaça

Na esquina da Mem de Sá,
a última ponta, o último gole no gengibre, a última ronda
Olhos vermelhos caçam
Bocas vermelhas querem
Nem sempre se encontram: já é sábado.

Tuesday, July 19, 2011

Atravessamentos

Acumulo atravessamentos 
Turistas que, tão logo conhecem minhas paisagens, 
sentem saudade da terra natal ou tem ânsia de seguir viagem 
Todos partem 
E carregam consigo pedaços de mim 
Quero quem faça de mim morada 
Quero quem finque bandeira no meio de minh’alma 
Quero gente que fique

Thursday, June 30, 2011

Dentro de mim correm rios-serpentinas, mares infinitos espumando em pedras antigas
Há um sol se pondo em rosa, laranja e vermelho a cada cinco minutos
A estrela mais brilhante acompanha uma lua filete de sorriso de gato da Alice e outra lua cheia, prestes a parir
Um sol nasce rei toda vez que meu corpo acorda céu azul
Às vezes chove, acima da média esperada para o mês de julho
Aí eu nado em angústia, bóio à deriva na minha própria imensidão
E logo depois me torno deserto, quilômetros e quilômetros de veias, órgãos, músculos, ossos e reações químicas existindo sem um fim
Mas é quando a sede cega encontra o nó mais apertado da garganta,
Que nasce uma flor-oásis na palma da minha mão
Com uma coceira que não dá pra alcançar, sinto que ganhei asas
Sobrevôo esse planeta misterioso que sou,
Sobrevivo mais uma vez a esse eclipse em carne viva que é ser eu.

Monday, May 16, 2011

Anedota passageira

Tenho dormido com muitos homens, 
mulheres também. 
De quase todos, fico sem saber o nome. 
E, por vezes, se levantam sem que eu tenha acordado. 
Promiscuidade inocente de quem pega no sono 
no ônibus, 
a caminho de Niterói.

Tuesday, May 03, 2011

Sonhei contigo:

Era de tarde e o sol esquentava gostoso nossas peles.
Talvez fosse outono, porque não suávamos.
De onde estávamos dava pra ver o horizonte.
Antes dele vinha o mar ou era a Baía de Guanabara mesmo, mas sem o Pão de Açúcar e o Corcovado.
Sentados, próximos, havia uma ansiedade delicada e conversávamos.
Você tava sem camisa e eu fui me chegando aos poucos, enquadrando a paisagem na metade de porta-retrato que o seu ombro esquerdo e a sua nuca formavam.
O pôr-do-sol tingiu o céu de um laranja e rosa bem vivos
E você me explicou que víamos aquelas cores por causa de um experimento lisérgico-científico que houve há muitos anos em Cuba.
Foi aí então que decidi fechar os olhos e te dar um beijo nas costas.
Como se aquele fosse um código pré-determinado que disparasse o sinal de quando a quantidade de espera, vontade, batimentos cardíacos, brilho nos olhos e saliva alcançasse os níveis perfeitos para nos tornarmos um par.
Aí o telefone tocou, eu acordei e desde então ando com esse pedaço de papel no bolso pra te entregar.

Monday, March 21, 2011

Sobre a urgência.

Acordei. Na boca, o gosto amargo do vinho de ontem. Antes de abrir os olhos refaço os passos que dei até chegar à minha cama. Passos tontos, através deles, chego também as palavras. Desejo com força que tenha sido sonho. Mas não foi. Lembro da música, das cores, do movimento, dos rostos, de alguns, é verdade. Lembro também das besteiras que disse e de como me portei. Já não sei se quero acordar, mas agora é tarde. Dormir mais não vai apagar a noite de ontem, embora a memória que tenho dela não seja nítida. Ainda assim me lembro, da Orquestra Voadora, do êxtase, do vinho, de um beijo, do argumento de que confiar no acaso é mais bonito que pegar meu telefone, dos segredos que eu não devia ter exposto em uma mesa de bar, das mensagens enviadas sem resposta antes de dormir. E, apesar de tudo, não me culpo, tenho urgência correndo nas veias. E ajo desesperadamente pra fazer as coisas acontecerem, dou passos maiores que minhas pernas, tropeço, mas continuo correndo na tentativa de encurtar o caminho entre eu e o amor que carrego no nome. Tenho urgência. A cada encontro, minha imaginação se delicia com as possibilidades futuras e, antes que eu queira, ela já construiu planos, pontes, travessia, vida inteira pela frente. Me joga sem paraquedas pra fora do avião e eu acredito que vai ter alguém lá embaixo esperando pra me segurar. Quase nunca tem. Mas eu tenho urgência: eu sempre acredito.

Friday, January 28, 2011

Acredito

Há um mês
O olhar atento, à espreita,
preparado para qualquer encontro armado pelo acaso

Encontro que não acontece,
olhar que se distancia
e quase se perde, impaciente

Coração-lua minguante,
mas que no dia seguinte cresce,
pois se alimenta das lembranças visitadas antes de dormir

E assim, coração sonha e se agiganta
Ignorando a ausência,
de teimoso, insiste na esperança

Há um mês essa luta
Trabalho árduo que cansa
Queda de braço entre o sim e o não

Mas se quer mesmo saber,
pra certeza assim sentida no toque da palma da mão,
não há medo, não há tempo, nem angústia

E até que todas as canções de amor me provem o contrário,
Acredito.

Monday, January 10, 2011

O estranho caso da vontade com o acaso

"É que acaso não complica com expectativa.
Por isso é tão gostoso!
Acaso se alimenta de tudo aquilo que não tenta
Dizem até que é um caso perdido
Quando você procura não acha
- Ah... vontade, relaxa! Que acaso, acontece."


Trecho de um poema da bonita Alice, que conseguiu acalmar a minha vontade e renovar a fé no acaso. O blog dela é esse aqui ;)

Tuesday, November 30, 2010

Festa à primeira mordida
Dança-delícia quando se rodopia a dois,
eu e você, um par

entre tantos, encontro
emaranhado de vontades, palavras, cachos e corpos:

encanto que se mede pelos nós.

Friday, August 06, 2010

Pílula do dia seguinte

Ingerida com a ajuda de um gole d'água
faz sumir a preocupação da barriga
Joga-se fora a embalagem
e torna-se flagrante a efemeridade do encontro
Fazendo varrer para mesma lata de lixo as lembranças de ontem
Antes que cismassem em querer morar aqui dentro por mais tempo.

Sunday, July 11, 2010

Ignorar é coisa difícil
Quando já se dormiu e acordou juntos tantas vezes
Sempre achei que nunca devia terminar assim
Que o amor é maior
Mas nesse mundo tudo é rótulo, lacre, algema
O que sinto não tem nome e é grande
Grande demais, maior do você pode enxergar
Rezo por um milagre que chegue por trás, de fininho
Te dando susto, mostrando o pulo do gato
que é essa vida
Te curando do soluço que te impede de voar

Tuesday, June 29, 2010

Queria que algo bem grande acontecesse pra varrer essas folhas secas do quintal. Pra transportar esses anseios, nós na garganta, alterações de humor pra outra década. Pra quando não mais fizessem sentido, sequer fossem lembrados, Polaroid ao contrário.
O inacabado cansa. O acabado machuca. Quero janelas novas. Quero brisa, frescor. Basta desse ranço de emoções de um intenso que não sacia. Quero a candura. O riso solto. Os ombros também.
Corpo já não agüenta, cabeça já não agüenta. Quero saber seguir adiante, com minhas próprias pernas longas e levemente arqueadas, a passos confortáveis, por outros caminhos. E se tropeçar, quero aconchego, braços abertos, “vai passar”.
Não quero dormir pra esquecer. Quero conseguir ficar acordada. Sem dor.

Tuesday, May 11, 2010

Versos avulsos

1.
Dia seguinte:
- Recolher as peças de roupa espalhadas pelo chão. E o coração que ficou embaixo de algum móvel pra não se envolver.


2.
Enquanto dormia, tive vontade de amanhecer.

Ciúme:

mosquito zumbindo no ouvido
quando tudo que se quer é dormir.

Sunday, March 21, 2010

Domingo:

ligar só pra te dizer que
já li Simmel, Becker e Weber,
caí no sono sem perceber,
quando acordei, comi Ana Maria de brigadeiro
enquanto pesquiso sobre Gestalt,
olhar pra sua cueca preferida vestindo meu corpo
me emociona e me faz
ligar só pra dizer que



te amo.

Wednesday, May 20, 2009

Para Romã, minha filha amada e querida

Para falar a sério
Tem que ser com a cara lavada
Para falar de madrugada
Só com linho e cachaça
Para falar o que você quer falar
Não adianta o telefone, nem e-mail, nem skipe, nem nada
Somente a transmissão de pensamento e tudo de bom, de bom
Que falta você faz, nessas noites de bobeira
Sem espelhos nem fumaça apenas seu olhar, teu corpo, seus cabelos
Uma vela acesa lá no fundo do quintal
Um banquinho para dois, um violão
E aquele mar de estrelas sob nossas cabeças
Como te esquecer? A tua cara triste, o teu sorriso, a sua manhã, seu dengo
Gata, menina, onde é que você está?
No verão da Bahia ou no frio em barão de Mauá
Deixa para lá, o outono ta aí
Minha velha guitarra ainda toca nossas canções
Nada nessa vida vale mais que você no meu coração
Um tom lilás para apaziguar todos problemas
Sozinho no Arpoador vendo o por do sol
Pensando em você
Um veleiro ao longe
O barulho das ondas do mar
Uma canção de ninar, no luar, lumiar...

Nordahl C. Neptune - 28/04/09

Friday, May 01, 2009

Poema-sonho

Enquanto durmo, escrevo meus melhores poemas.
Sai tudo redondinho, as metáforas, criativas, as palavras, certeiras,
Flecha bem no alvo.
Mas é só o vira-lata latir anunciando que a vida lá fora amanheceu,
E os olhos se abrirem espreguiçando-se,
Que correm todos, os poemas, pra debaixo da pálpebra
Ali, onde ficarão brincando com os meus sonhos de amanhã.

Wednesday, April 01, 2009

Astronauta

Sonhei que você era astronauta,
que entre uma missão intergaláctica e outra,
voltava pra casa e me dava de presente
a estrela mais brilhante de todo Universo: nós dois.



(Fiquei tão feliz de achar esse poeminha solto num caderno!)

Saturday, March 07, 2009

Dois

(Para Botika e Vitor Paiva)

Ali,
Sob a mesma luz.
Diante de mim.
Eram dois e ao mesmo tempo um só.
Dois que, quando juntos, se transformam
num Ser feito de lembranças, desejo e afeto
que pulsa dentro de mim.
Sob a mesma luz.
Um, festa de 15 anos,
Outro, meus 20 e poucos
Um, a expectativa e a verdade que só o tempo faz descobrir.
Outro, a surpresa do que nunca foi esperado.
Sonho e realidade, lado a lado.
Sob a mesma luz,
Enfim, irmãos.
Filhos do meu amor.